LOSANGO CAQUI (XXII)
A manhã roda macia a meu lado
Entre arranha-céus de luz
Construídos pelo milhor engenheiro da Terra.
Como êle deixou longe as renascenças do snr. dr. Ramos de Azevedo!
De que valem a Escola Normal o Théâtre Municipal de l'Opéra
E o sinuoso edifício dos Correios-e-Telégrafos
Com aquêle relógio-diadema made inexpressively?
Na Paulicea desvairada das minhas sensações
O Sol é o snr. engenheiro oficial.
MOMENTO
Ninguém ignora a inquietação do clima paulistano…
Pois tivemos hoje uma arraiada fresca de neblina.
Depois do calorão duma noite maldita, sem sono,
Uma neblina leviana desprendeu das nuvens lisas
E pousou um momentinho sôbre o corpo da cidade.
Ôh como era boa, e o carinho que teve pousando!
Não espantou, não bateu asa, não fez nenhuma bulha,
Veio, que nem beijo de minha mãi si estou enfezado
Vem mansinho, sem medo de mim, e poisa na minha testa.
Assim neblina fez, e o sopro dela acalmou as penas
Desta cidade histórica, desta cidade completa,
Cheia de passado e presente, berço nobre onde nasci.
Os beijos de minha mãi são tal-e-qual a neblina madruga…
Meu pensamento é tal-e-qual São Paulo, é histórico e completo
É presente e passado e dele nasce meu ser verdadeiro…
Vem, neblina, vem! Beija-me, sossega-me o meu pensamento!
Mário de Andrade (1893-19450)
quarta-feira, março 31, 2010
segunda-feira, março 29, 2010
DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.
Alberto Caeiro, em "O Guardador
de Rebanhos".
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