domingo, novembro 23, 2014

Almada Negreiros

Momento de poesia 


Se me ponho a trabalhar 
e escrevo ou desenho 
logo me sinto tão atrasado 
no que devo à eternidade, 
que começo a empurrar para diante o tempo 
e empurro-o, empurro-o à bruta 
como empurra um atrasado, 
até que cansado no julgo satisfeito; 
e o efeito da fadiga 
é muito igual à ilusão da satisfação! 
Em troca, se vou passear por aí 
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo, 
Compreendo tão bem o que não me diz respeito, 
sinto-me tão chefe do que é fora de mim, 
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos 
de uma aflição que não é minha, 
dou-me tão perfeitamente conta do que 
se passa fora das minhas muralhas 
como sou cego ao ler-me ao espelho, 
que, sinceramente não sei qual 
seja melhor, 
se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo 
o que não é meu. 

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